Essa garoa, a rua vazia, os passos. Nem lembro que ando, não há esforço para pôr um pé frente ao outro, nem sinto o desequilibrar de ficar momentaneamente com um pé firme e o outro vago no ar. Na sucessão do movimento, me desloco. No desequilíbrio, me mantenho distante.
E então martelo, me viro em avessos, esses sortimentos que uma hora penso que inventei, que é teatro, que é personagem, onde acredito que nem há definição a ser feita.
Às vezes penso que escolhi amar e na mesma escolha optei por sofrer. Optar por sofrer...soa como masoquismo, mas dor é bom, faz entender. Dor é um feedback, confirma que o coração entendeu a mensagem, que há comunicação do cérebro com este, deste com o corpo e os fluxos onde um ponto de vista corta o sentimento. Ela vem e dói, lembra que ainda há, é, existe.
Quando penso com lucidez, essa história é feia e maldosa. Então eu analiso, sentencio como se tudo tivesse surgido para ferir e arruinar a fé de alguém que só vi em uma foto.
Quando penso com piedade, muda tudo: os personagens são tolos conforme a covardia permitida no álibi de culpar o sentimento em si e tudo vira uma fraqueza. Só enxergo perdedores, nada se recicla, tudo escoa para o mesmo mar.
Mas às vezes me pego boba, no interior da minha concha, como se tivesse guardado isso no útero, livre de todo mal e de todas as más explicações, e então você me vem bom, puro, amado. É onde me desvairio em febres, em olhares que se perdem na vidraça, em jantares que invento, em cartas que não escrevo, em meu punhado de bons momentos que alongo, espicho e rebobino. Hoje vivi mil vezes aquele beijo e pude sentir teu gosto na minha boca mil vezes como se essa interpretação repetida mantivesse sempre o sabor inalterado.
Mas então garoa à noite enquanto penso em ti. Sei que molha, mas não vejo, só olhando contra a luz amarela dos postes pra visualizar. Mas melhor que ver, é sentir.
Patty - 15/10/08
sábado, 18 de outubro de 2008
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